Relatório semestral do Instituto Fogo Cruzado traz balanço geral da violência armada em Salvador e região metropolitana
Os dados do Relatório Semestral do Instituto Fogo Cruzado, divulgado nesta quarta-feira (29), mostram que o primeiro semestre de 2026 foi marcado pelo agravamento da violência armada em Salvador e na Região Metropolitana, sobretudo pela ampliação da participação das ações e operações policiais nos tiroteios registrados.
No período, foram registrados 656 tiroteios, dos quais 366 ocorreram durante ações e operações policiais, representando 56% do total, o maior percentual da série histórica do Instituto Fogo Cruzado na Bahia e superior ao observado nas regiões metropolitanas do Rio de Janeiro (47%), Belém (45%) e Recife (9%).
Foram contabilizadas 637 pessoas baleadas, sendo 487 mortas e 150 feridas. Destas, 340 foram atingidas durante ações policiais.
“A política de segurança pública não consegue conter os elevados índices de letalidade e já há algum tempo os dados evidenciam isso. A exposição à violência é algo real, não apenas sensação. A letalidade policial permanece elevada e, ainda que o governo comemore minúsculas reduções, o tempo passa e a realidade é a mesma: a lógica do confronto segue estruturando a atuação do Estado sem efetividade para proteger a população e de fato fazê-la se sentir mais segura”, afirma Tailane Muniz, coordenadora regional do Instituto Fogo Cruzado na Bahia.
Um dos indicadores que mais chamam atenção no semestre é o das chacinas em ações policiais. Embora o número absoluto de chacinas tenha apresentado redução em relação a períodos anteriores, 93% de todas as chacinas registradas ocorreram durante ações policiais, o maior percentual da série histórica monitorada pelo Instituto desde 2022. Ao todo, as chacinas ocorridas durante ações e operações policiais deixaram 49 mortos.
O Complexo do Nordeste de Amaralina aparece como um dos principais lugares impactados por essa dinâmica. Apenas os bairros Nordeste e Pirajá concentraram 37% das mortes em chacinas policiais registradas no semestre.
“As chacinas policiais ainda são um marcador de destaque da violência armada na região metropolitana e nesse primeiro semestre preocupa a situação do Nordeste de Amaralina. Chacinas policiais integram a dinâmica cotidiana da segurança pública da Bahia e isso coloca a população na linha de tiro, impacta no funcionamento de escolas e outros equipamentos públicos. Essa é hoje a rotina dos moradores do Nordeste e é preciso chamar atenção para isso”, destaca Tailane Muniz.
Outro dado que chama atenção é o recorde de perseguições durante ações policiais. O primeiro semestre de 2026 registrou 98 perseguições, o maior número absoluto da série histórica do Instituto Fogo Cruzado. Como consequência, também foi registrado o maior número de pessoas baleadas nesses episódios (95).
Entre os grupos mais afetados pela violência, crianças e adolescentes voltaram a apresentar crescimento nos registros. Enquanto o primeiro semestre de 2025 não contabilizou nenhuma criança baleada durante ações policiais, em 2026 ao menos duas crianças foram atingidas. Entre adolescentes, o número de vítimas baleadas em ações policiais cresceu 36%, alcançando o maior patamar da série histórica.
A violência armada também atingiu moradores dentro de suas próprias casas. Os casos de pessoas baleadas em residências cresceram 17% em relação ao mesmo período do ano anterior. Um dos episódios mais emblemáticos foi o feminicídio da cabo Celeste de Oliveira Martins, assassinada pelo próprio marido, também policial militar, dentro do apartamento onde o casal morava, no bairro do Barbalho, em Salvador. No semestre, os registros de feminicídio aumentaram 25%.
A violência também alcançou os próprios trabalhadores da segurança pública. O número de agentes baleados dobrou em relação ao primeiro semestre de 2025. Pela primeira vez na série histórica, a maioria dos agentes foi baleada durante o serviço: 59% das vítimas estavam em atividade quando foram atingidas.
“Os próprios profissionais da segurança são vítimas cada vez mais frequentes durante o exercício do trabalho, o que demonstra um cenário de intensificação do conflito armado, que naturalmente produz riscos para toda a sociedade e essa é uma conclusão óbvia que estamos aqui para lembrar”, avalia Tailane Muniz.
O semestre em dados
De janeiro a junho de 2026, foram registrados 656 tiroteios e/ou disparos de arma de fogo em Salvador e Região Metropolitana, o equivalente a uma média de quatro ocorrências por dia. 56% dos tiroteios aconteceram durante ações e operações policiais, onde foram registrados 366 casos. No primeiro semestre de 2025, Salvador e RMS registraram 839 tiroteios, uma média de cinco por dia. Do total, 42% ocorreram durante ações, o equivalente a 353 casos.
637 pessoas foram baleadas: 487 foram mortas e 150 ficaram feridas. Entre o total de baleados (637) baleados, 340 foram atingidos em ações e operações policiais, indicando que 53% dos baleados foram atingidos nestas circunstâncias. De janeiro a junho de 2025, 864 pessoas foram baleadas, das quais 700 foram mortas e 164 ficaram feridas. Entre os 864 baleados, 347 foram atingidos em ações e operações policiais, o que equivale a 40% dos casos.
Dos 487 mortos no primeiro semestre de 2026 em Salvador e região metropolitana, 52 foram vitimados em 14 chacinas registradas. Deste total de chacinas, 93% delas (13) ocorreram durante ações ou operações policiais, deixando 49 mortos. Dos 700 mortos no primeiro semestre do ano anterior, 75 foram vitimados em 20 chacinas. Entre as chacinas mapeadas no primeiro semestre 2025, 65% delas (14) foram durante ações ou operações policiais, deixando 57 mortos.
O mapa da violência armada
Municípios
Salvador segue liderando o ranking dos municípios mais impactados pela violência armada neste primeiro semestre de 2026 e concentra 74% dos tiroteios registrados no primeiro semestre de 2026.
- Salvador: 473 tiroteios, 338 mortos e 126 feridos
- Camaçari: 53 tiroteios, 36 mortos e 12 feridos
- Dias D’Ávila: 32 tiroteios, 28 mortos e 1 ferido
- Lauro de Freitas: 28 tiroteios, 32 mortos e 4 feridos
- Simões Filho: 25 tiroteios, 18 mortos e 1 ferido
- Candeias: 14 tiroteios, 12 mortos e 1 ferido
- Vera Cruz: 13 tiroteios, 12 mortos e 2 feridos
- Mata de São João: 6 tiroteios e 5 mortos
- Itaparica: 5 tiroteios e 2 mortos
- São Sebastião do Passé: 4 tiroteios, 1 morto e 1 ferido
- São Francisco do Conde: 3 tiroteios e 3 mortos
Bairros
Considerando os bairros de Salvador e da região metropolitana, os mais impactados pela violência armada estão localizados em Salvador. Entre os mais afetados em 2025 estão:
- Beiru/Tancredo Neves: 19 tiroteios e 10 mortos
- São Cristóvão (Salvador): 15 tiroteios, 10 mortos e 3 feridos
- Engenho Velho de Brotas (Salvador): 14 tiroteios, 10 mortos e 7 feridos
- Pirajá (Salvador): 13 tiroteios, 18 mortos e 1 ferido
- Itapuã (Salvador): 12 tiroteios, 8 mortos e 5 feridos
- Pernambués (Salvador): 12 tiroteios, 5 mortos e 2 feridos
- Santa Cruz (Salvador): 12 tiroteios e 14 mortos
Locais
Entre as 637 pessoas baleadas em Salvador e região metropolitana de janeiro a junho de 2026, 81 pessoas foram baleadas quando estavam dentro de casa, 26 foram baleadas quando estavam dentro de automóveis, 25 foram atingidas em eventos, oito atingidas quando estavam em bares, uma pessoa foi baleada dentro de transporte público, uma atingida dentro de uma unidade de ensino e outra baleada em um lava jato.
O perfil da violência armada
Agentes de segurança
Ao menos 34 agentes de segurança foram baleados em Salvador e região metropolitana no primeiro semestre de 2026. 10 morreram e 24 ficaram feridos. Do total de agentes baleados, 24 deles foram baleados quando estavam em serviço, seis quando estavam fora de serviço/de folga e quatro agentes baleados eram aposentados/exonerados do cargo. Os policiais militares foram os mais afetados pela violência armada (30), representando 88% dos agentes baleados.
Ocupação
Ao menos 11 mototaxistas/entregadores/motoboys, seis motoristas de aplicativo e um vendedor ambulante foram baleados nos primeiros seis meses de 2026 em Salvador e região metropolitana.
Balas perdidas
Seis pessoas foram atingidas por balas perdidas no primeiro semestre de 2026 em Salvador e RMS. No mesmo período de 2025, foram registradas 19 vítimas de balas perdidas.
Vítimas por faixa etária
Com 588 vítimas, adultos entre 18 e 59 anos foram os mais atingidos pela violência armada, mas houve ainda ao menos seis crianças (com idades até 11 anos), 37 adolescentes(entre 12 e 17 anos) e cinco idosos (a partir de 60 anos)foram baleados em Salvador e região metropolitana nos primeiros seis meses de 2026.
Motivos
Entre os principais motivos dos disparos de arma de fogo na região metropolitana estão: Ações/Operações policiais (366); Homicídios/Tentativas de homicídio (209); Disputas entre grupos armados (42); Roubo/Tentativa de roubo (42); e Sequestro/Cárcere Privado (18) e brigas (15).
SOBRE O FOGO CRUZADO
O Fogo Cruzado é um Instituto que utiliza tecnologia para produzir e divulgar dados abertos e colaborativos sobre violência armada, fortalecendo a democracia através da transformação social e da preservação da vida.
Com uma metodologia própria e inovadora, o laboratório de dados da instituição produz mais de 50 indicadores inéditos sobre violência nas regiões metropolitanas do Rio, do Recife, de Salvador e de Belém.
Por meio de um aplicativo de celular, o Fogo Cruzado obtém e disponibiliza informações sobre tiroteios, verificados em tempo real, que são o único banco de dados aberto sobre violência armada da América Latina, que pode ser acessado gratuitamente pela API do Instituto ou dos relatórios produzidos mensalmente.
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Fonte: Assessoria de imprensa
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